Maricá — 9 de agosto de 2026
Maurício
Pescador de madrugada. Vascaíno de sofrimento.
Churrasqueiro de domingo. Pai de dois e de três cachorras.
Este site inteiro é sobre o senhor. Role a página devagar.
O que não dá pra devolver
O senhor é pai há
Desde o Daniel
05.04.2004
—
carregando
— dias inteiros
Desde a Débora
13.02.2009
—
carregando
— dias inteiros
Esses números estão correndo agora, enquanto o senhor lê. Nenhum deles voltou atrás uma vez sequer.
Capítulo um
O mar não tem pressa.
O senhor também não.
Ninguém entende direito por que um homem levanta antes do sol pra ficar de pé na areia esperando um peixe que talvez não venha.
Eu entendo. O senhor nunca foi de atalho — nem na praia, nem em casa. Finca a vara, abre a cadeira, e espera. Se vier, veio. Se não vier, o senhor volta amanhã.
Eu passei a vida inteira olhando isso de perto e achando que era só pescaria. Não era. Era aula.
Capítulo dois
A mesma pose,
uns bons anos depois
Cresci vendo o senhor não falar sobre consertar as coisas — só levantar e ir consertar. Demorei pra entender que aquilo era um método.
Capítulo três
A mulher que o senhor
escolheu segurar
Tem homem que fala que apoia. E tem homem que aparece na foto com a mão no canudo.
A mãe voltou a estudar já com a casa cheia, dois filhos, vida acontecendo em cima. Isso só é possível quando alguém segura o outro lado. O senhor segurou.
Capítulo quatro
Belinha, Pepinha e Anita
Três cachorras que nunca precisaram aprender a confiar no senhor. Já chegaram sabendo.
Capítulo cinco
O motorista oficial
de todo mundo
O HB20 preto já levou filho pra prova, mulher pra faculdade, avó pra igreja, cachorro pro veterinário e a família inteira pra praia — às vezes tudo no mesmo dia.
Ninguém nunca precisou perguntar se dava. Só falava a hora.
Capítulo seis
Quem faz o churrasco
é o último a sentar
Todo mundo já está com o prato cheio e o senhor ainda está de pé, virando a carne, perguntando se está bom.
É a coisa mais sua que existe: cuidar primeiro, comer depois.
E quando a mesa aumenta, aumenta. Vovó Nete de um lado, vovó do outro, filho, filha, mulher. O senhor nunca reclamou de casa cheia — o senhor só puxava mais uma cadeira.
Capítulo sete
O senhor me ensinou
a torcer pro Vasco
Que é quase a mesma coisa que ensinar a ter fé: a gente não escolhe porque é fácil, escolhe porque é nosso. Aguenta o ano ruim, aguenta a segunda divisão, aguenta o comentarista de plantão — e no domingo seguinte está lá de novo, camisa vestida, esperança intacta.
Fidelidade não se explica. Se pratica. Foi assim que eu aprendi com o senhor.
Capítulo oito
“O justo caminha na sua integridade;
Provérbios 20:7
bem-aventurados são os seus filhos depois dele.”
Eu já ouvi esse versículo na Lagoinha e já ouvi na Nova Vida. Nas duas vezes eu pensei exatamente a mesma coisa: está falando do meu pai.
Os filhos abençoados depois dele somos eu e a Débora. E a gente sabe muito bem de onde isso veio.
A carta
Pai,
O senhor nunca foi homem de discurso — e olha a ironia: seu filho foi virar justamente o cara que passa o dia escrevendo. Então deixa eu usar o que eu sei fazer pra falar o que a gente quase nunca para pra dizer em voz alta.
Eu não tenho lembrança de ter faltado. Não estou dizendo que sempre sobrou — estou dizendo que eu nunca soube quando faltou. Isso não acontece sozinho. Alguém segurou de fora pra dentro. Foram o senhor e a mãe.
E o senhor me ensinou umas coisas que não estavam em plano nenhum de educação: que homem que ama cachorro é homem bom. Que pescaria não é sobre peixe, é sobre saber esperar. Que time a gente não troca quando o ano é ruim. Que domingo tem hora de igreja e tem hora de brasa, e as duas são sagradas do mesmo jeito.
Hoje eu trabalho com uma coisa que não dá pra pegar na mão, que o senhor não vê tomando forma na bancada. Mas tudo que eu construo, eu construo com uma peça que veio inteirinha do senhor: não entregar nada pela metade.
Este site aqui é a única coisa que eu sei fazer que o dinheiro não compra pronto. Fiz do zero, foto por foto, palavra por palavra, pensando no senhor o tempo todo.
Feliz Dia dos Pais. Continua acordando cedo, continua enchendo o carro de gente, continua chamando a Belinha, a Pepinha e a Anita pelo nome com aquela voz. A gente está aqui — e vai estar.
Pro mundo o senhor é Maurício.
Pra mim nunca foi outra coisa além de pai.
Daniel
— e a Débora assina embaixo.
O mural
Tudo que coube numa página
Toque em qualquer foto pra ver grande.