Maurício de pé na areia, vara de pescar erguida, olhando a arrebentação.

Maricá  —  9 de agosto de 2026

Maurício

Pescador de madrugada. Vascaíno de sofrimento.
Churrasqueiro de domingo. Pai de dois e de três cachorras.

Este site inteiro é sobre o senhor. Role a página devagar.

O que não dá pra devolver

O senhor é pai há

Desde o Daniel

05.04.2004

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dias inteiros

Desde a Débora

13.02.2009

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dias inteiros

Esses números estão correndo agora, enquanto o senhor lê. Nenhum deles voltou atrás uma vez sequer.

Capítulo um

O mar não tem pressa.
O senhor também não.

Ninguém entende direito por que um homem levanta antes do sol pra ficar de pé na areia esperando um peixe que talvez não venha.

Eu entendo. O senhor nunca foi de atalho — nem na praia, nem em casa. Finca a vara, abre a cadeira, e espera. Se vier, veio. Se não vier, o senhor volta amanhã.

Eu passei a vida inteira olhando isso de perto e achando que era só pescaria. Não era. Era aula.

Maurício pescando na beira do mar, camisa de pesca colorida e vara apontada para a arrebentação.
A vara fincada na areia. O resto é paciência.

Capítulo dois

A mesma pose,
uns bons anos depois

Maurício sentado numa pedra no parque com Daniel pequeno no colo, os dois de braços abertos.
Lá atrás Braço aberto pro mundo inteiro, com o filho preso no colo.
Daniel adulto e Maurício de frente um para o outro, fazendo pose de força.
Hoje O braço continua aberto. Só que agora o moleque encara de igual pra igual.

Cresci vendo o senhor não falar sobre consertar as coisas — só levantar e ir consertar. Demorei pra entender que aquilo era um método.

Maurício e Débora pequena na praia, os dois de boné, sorrindo para a câmera.
A Débora, praia, boné igual ao do pai.
Maurício e Débora sorrindo, segurando uma placa escrita Papaizinho lindo, meu amor.
“Papaizinho lindo, meu amor.” Ela escreveu, e não era só da boca pra fora.

Capítulo três

A mulher que o senhor
escolheu segurar

Mariana formada em Enfermagem, de beca, segurando o canudo junto com Maurício, Débora e Daniel, com o Pão de Açúcar ao fundo.
Formatura da mãe, Enfermagem. Quem está segurando o canudo junto é o senhor.

Tem homem que fala que apoia. E tem homem que aparece na foto com a mão no canudo.

A mãe voltou a estudar já com a casa cheia, dois filhos, vida acontecendo em cima. Isso só é possível quando alguém segura o outro lado. O senhor segurou.

Maurício e Mariana abraçados na praia no fim da tarde.
Fim de tarde, os dois. Continua dando certo.
Maurício e Mariana de camiseta preta igual, fazendo biquinho para a selfie na rua.
Camiseta igual, biquinho igual. Vinte e tantos anos de namoro mal disfarçado.

Capítulo quatro

Belinha, Pepinha e Anita

Três cachorras que nunca precisaram aprender a confiar no senhor. Já chegaram sabendo.

Belinha, cachorra caramelo de pelo longo, deitada no chão olhando para cima.
Belinha Olhar de quem já sabe que vai ganhar o pedaço da carne.
Pepinha tomando banho, patinha na mão de alguém, cara de espuma.
Pepinha Dia de banho. Reclamou, mas deu a patinha.
Maurício sorrindo no banco do motorista com Anita, cachorra preta, sentada no banco do carona olhando pela janela.
Anita Banco do carona. O lugar dela, e ninguém discute.

Capítulo cinco

O motorista oficial
de todo mundo

O HB20 preto já levou filho pra prova, mulher pra faculdade, avó pra igreja, cachorro pro veterinário e a família inteira pra praia — às vezes tudo no mesmo dia.

Ninguém nunca precisou perguntar se dava. Só falava a hora.

Maurício sorrindo, polegar para cima, na beira da estrada.
Polegar pra cima. Tradução: pode ir tranquilo que eu resolvo.
Maurício de regata, polegar para cima, com a serra de Maricá ao fundo.
Maricá atrás, o dia inteiro pela frente.

Capítulo seis

Quem faz o churrasco
é o último a sentar

Todo mundo já está com o prato cheio e o senhor ainda está de pé, virando a carne, perguntando se está bom.

É a coisa mais sua que existe: cuidar primeiro, comer depois.

Maurício de chapéu, Mariana e as duas crianças em volta da mesa do almoço na varanda.
Mesa cheia, criançada com fome, o senhor no comando.

E quando a mesa aumenta, aumenta. Vovó Nete de um lado, vovó do outro, filho, filha, mulher. O senhor nunca reclamou de casa cheia — o senhor só puxava mais uma cadeira.

Maurício em selfie com Daniel, Débora, Mariana e as duas avós reunidos na sala.
Todo mundo numa selfie só. Ninguém de fora.
Maurício abraçado com a mãe, dona Linete, na frente do letreiro do Natal Iluminado de Maricá 2019.
Com a vovó Nete, no Natal Iluminado. Filho antes de tudo.
Daniel, o vovô Carlinhos e Maurício abraçados ao fim da tarde, com coqueiros ao fundo.
Vovô Carlinhos no meio. Três gerações do mesmo teimoso numa foto só.

Capítulo sete

O senhor me ensinou
a torcer pro Vasco

Que é quase a mesma coisa que ensinar a ter fé: a gente não escolhe porque é fácil, escolhe porque é nosso. Aguenta o ano ruim, aguenta a segunda divisão, aguenta o comentarista de plantão — e no domingo seguinte está lá de novo, camisa vestida, esperança intacta.

Fidelidade não se explica. Se pratica. Foi assim que eu aprendi com o senhor.

Capítulo oito

“O justo caminha na sua integridade;
bem-aventurados são os seus filhos depois dele.”

Provérbios 20:7

Eu já ouvi esse versículo na Lagoinha e já ouvi na Nova Vida. Nas duas vezes eu pensei exatamente a mesma coisa: está falando do meu pai.

Os filhos abençoados depois dele somos eu e a Débora. E a gente sabe muito bem de onde isso veio.

A carta

Pai,

O senhor nunca foi homem de discurso — e olha a ironia: seu filho foi virar justamente o cara que passa o dia escrevendo. Então deixa eu usar o que eu sei fazer pra falar o que a gente quase nunca para pra dizer em voz alta.

Eu não tenho lembrança de ter faltado. Não estou dizendo que sempre sobrou — estou dizendo que eu nunca soube quando faltou. Isso não acontece sozinho. Alguém segurou de fora pra dentro. Foram o senhor e a mãe.

E o senhor me ensinou umas coisas que não estavam em plano nenhum de educação: que homem que ama cachorro é homem bom. Que pescaria não é sobre peixe, é sobre saber esperar. Que time a gente não troca quando o ano é ruim. Que domingo tem hora de igreja e tem hora de brasa, e as duas são sagradas do mesmo jeito.

Hoje eu trabalho com uma coisa que não dá pra pegar na mão, que o senhor não vê tomando forma na bancada. Mas tudo que eu construo, eu construo com uma peça que veio inteirinha do senhor: não entregar nada pela metade.

Este site aqui é a única coisa que eu sei fazer que o dinheiro não compra pronto. Fiz do zero, foto por foto, palavra por palavra, pensando no senhor o tempo todo.

Feliz Dia dos Pais. Continua acordando cedo, continua enchendo o carro de gente, continua chamando a Belinha, a Pepinha e a Anita pelo nome com aquela voz. A gente está aqui — e vai estar.

Pro mundo o senhor é Maurício.
Pra mim nunca foi outra coisa além de pai.

Daniel

— e a Débora assina embaixo.

O mural

Tudo que coube numa página

Toque em qualquer foto pra ver grande.